Folhas e raízes

Dente-de-leão

Taraxacum officinale F.H.Wigg.

Planta onipresente de folhas dentadas e flor amarela, usada como verdura amarga, em infusão de folhas e em decocção de raiz torrada, substituta do café.

  • Amargo
  • Herbal
  • Terroso
  • Torrado
  • Tisana
  • Sem cafeína
Dente-de-leão (Taraxacum officinale) com flor amarela e roseta de folhas recortadas
Foto: NY State IPM Program at Cornell University from New York, USA · CC BY 2.0 · fonte: Wikimedia Commons (arquivo “Taraxacum officinale - whole plant, flowers, leaves (18444031003).jpg”).
Conteúdo informativo e cultural. Usos tradicionais são contexto histórico, não comprovação de eficácia. Veja os cuidados e o aviso sobre plantas e saúde.

Apresentação

Poucas plantas são tão reconhecíveis quanto o dente-de-leão: uma roseta de folhas profundamente recortadas, uma flor amarela e, depois, a esfera branca de frutos plumosos que as crianças sopram. Por trás da imagem de erva daninha, há séculos de uso culinário e doméstico, sobretudo na Europa, onde as folhas jovens entram em saladas e a raiz é torrada.

Em infusões, as partes têm papéis diferentes. A folha, seca ou fresca, rende um chá herbal e amargo, de gosto vegetal. A raiz, que costuma ser tostada e moída, produz uma bebida escura, de sabor torrado e levemente adocicado, usada como alternativa sem cafeína ao café, de forma semelhante à chicória. As flores servem para vinho caseiro, xarope e geleia, de sabor delicado de mel.

Por ser tão comum, é importante colher com critério: gramados tratados com herbicidas, margens de estradas e solos contaminados não são adequados. Para consumo, prefira plantas de áreas limpas ou produtos de procedência conhecida.

Origem

O dente-de-leão é nativo de regiões temperadas da Europa e da Ásia, mas hoje é uma das plantas mais disseminadas do planeta, presente em gramados, bordas de estrada e campos de quase todos os continentes. A dispersão foi favorecida pela produção de sementes leves, de pluma, levadas pelo vento, e por um ciclo de vida flexível. Em muitos países, foi levada de propósito por colonos, que a cultivavam como verdura, e em outros chegou como invasora. O gênero Taraxacum é complexo, com centenas de microespécies, e o nome T. officinale designa um agregado.

Características visuais

Planta herbácea perene, com uma roseta basal de folhas lanceoladas, de bordas recortadas em lóbulos pontiagudos, que lembram dentes, de onde vem o nome. A raiz principal é longa, carnuda e de casca marrom, com látex branco leitoso que também escorre dos caules. As flores são capítulos amarelo-dourados, em hastes ocas e sem folhas, que se fecham à noite e com mau tempo. Os frutos são aquênios com pluma de pelos brancos. A folha seca é verde-escura e quebradiça, e a raiz seca, marrom-escura e dura, em pedaços cortados ou torrada.

Aroma e sabor

A folha tem aroma vegetal fresco e sabor amargo e levemente salgado, com lembranças de rúcula e chicória, mais acentuado em plantas velhas e sob sol forte. A raiz crua é terrosa e amarga, e, torrada, desenvolve notas de cacau, café fraco e caramelo, sem a acidez do café. A infusão de flor é suave, doce e com perfume de mel e pólen. O amargor pode ser suavizado com mel, leite vegetal, canela ou casca de laranja. Em blends, a raiz torrada combina com chicória, cevada torrada, canela e cacau, enquanto a folha vai bem com hortelã, limão e gengibre.

Aroma
Amargor
Doçura
Corpo

Preparo tradicional

As medidas abaixo são de paladar, não de dose. Ajuste ao seu gosto.

Formas de preparo
MétodoÁguaTempoProporçãoComo se faz
Infusão de folhas90–95 °C5–8 min1 colher de sopa de folhas secas para 200 mL (medida de paladar)Folhas secas ou frescas picadas, em água quente, tampado; coar ao final.
Decocção da raiz torradaFervura branda8–12 min1 colher de sopa de raiz torrada para 250 mL (medida de paladar)Raiz torrada e moída fervida em fogo baixo; dá bebida escura, parecida com um café sem cafeína.
Infusão de flores85–90 °C5 min1 colher de sopa de flores para 200 mL (medida de paladar)Pétalas amarelas, sem a base verde, em água quente; suave e adocicada.

Presença nas culturas

França

As folhas jovens, chamadas de pissenlit, vão a saladas com bacon e ovo, e o nome popular, pissenlit, ainda é objeto de brincadeira. Vendidas em mercados na primavera, são cultivadas por produtores específicos.

Reino Unido e Irlanda

O vinho de dente-de-leão e o xarope de flor são preparações caseiras tradicionais, ligadas à primavera.

América do Norte

Foi levada por colonos como planta de horta e hoje é onipresente; a raiz torrada é encontrada em lojas de produtos naturais como substituto do café.

Brasil

A planta é encontrada em regiões mais frias e em cultivos, e vendida em feiras de produtos naturais, com folhas e raízes secas.

Usos tradicionais

Contexto cultural Não é evidência científica

Na tradição popular europeia, a folha e a raiz de dente-de-leão são associadas há séculos a infusões depurativas de primavera e ao cuidado com a digestão, e o nome francês pissenlit alude ao uso diurético atribuído à planta. Em outras tradições, como a da América do Norte e a da medicina tradicional chinesa, a planta também tem lugar em práticas domésticas.

Esses usos são contexto histórico e cultural, não evidência de eficácia. O papel mais firme da planta ao longo do tempo é alimentar: verdura amarga de primavera, bebida de raiz torrada, flores para licores e vinhos caseiros.

O que a pesquisa diz

Evidência científica Com limitações

A planta contém lactonas sesquiterpênicas amargas, como a taraxinina, triterpenos como o taraxasterol, polifenóis, e a raiz é rica em inulina, um carboidrato de reserva. As folhas são ricas em potássio e em vitaminas K e A (pró-vitamina), o que as torna nutritivas como verdura.

A pesquisa sobre efeitos da planta é predominantemente laboratorial ou em animais, e os poucos estudos em humanos são pequenos. Monografias da EMA/HMPC reconhecem o uso tradicional da folha e da raiz, mas isso é diferente de evidência clínica robusta. O efeito diurético sugerido por estudos preliminares carece de confirmação sólida.

Cuidados e contraindicações

  • Alergia a Asteraceae. Pessoas alérgicas a plantas da família das margaridas, como camomila, arnica, crisântemo e ambrósia, podem ter reação ao dente-de-leão, inclusive dermatite de contato com o látex.
  • Gravidez e amamentação. Não há dados suficientes sobre o uso de preparados concentrados nesses períodos. Em quantidades de alimento, o consumo é comum, mas converse com o profissional que acompanha a gestação.
  • Medicamentos e condições. Pode interagir com diuréticos, lítio, anticoagulantes e antidiabéticos, e seu teor de potássio merece atenção em quem tem doença renal. Quem tem obstrução biliar ou cálculos deve procurar orientação.
  • Identificação correta. Há muitas plantas parecidas de flor amarela, como Hypochaeris radicata e Sonchus. Colha apenas em áreas sem herbicidas ou poluição e com certeza de identificação. Em caso de dúvidas, condições de saúde ou uso de medicamentos, consulte um profissional de saúde.

Curiosidades

  • O nome em português e em outras línguas faz referência aos dentes das folhas, como em inglês, dandelion, de dent-de-lion.
  • A inflorescência amarela é um capítulo composto por centenas de pequenas flores ligulares.
  • Muitas populações de Taraxacum se reproduzem por apomixia, sem fecundação.
  • A raiz é rica em inulina, o mesmo tipo de carboidrato presente na chicória.
  • Os frutos com pluma, os paraquedas, podem ser levados pelo vento por longas distâncias.

Comparação com plantas relacionadas

Comparação entre Dente-de-leão e plantas relacionadas
PlantaParte usadaSaborCafeínaAromaAmargorDoçura
Dente-de-leão
Taraxacum officinale F.H.Wigg.
Folha, Raiz e rizoma, FlorAmargo, Herbal, Terroso, TorradoSem cafeína2/54/51/5
Chicória
Cichorium intybus L.
Raiz e rizomaTorrado, Amargo, TerrosoSem cafeína3/54/52/5
Urtiga
Urtica dioica L.
FolhaHerbal, Terroso, AdocicadoSem cafeína2/51/52/5
Boldo
Plectranthus barbatus Andrews
FolhaAmargo, Herbal, TerrosoSem cafeína3/55/51/5
Camomila
Matricaria chamomilla L. (sinônimo: Matricaria recutita L.)
FlorFloral, Adocicado, HerbalSem cafeína3/52/53/5

Notas de 1 a 5 são avaliações editoriais de intensidade percebida, úteis para comparar, e não medições. Veja mais no comparador.

Veja também

Folhas e raízes

Chicória

Cichorium intybus L.

Raiz torrada e moída de Cichorium intybus, usada há séculos como bebida escura, amarga e aromática, semelhante ao café e sem cafeína.

  • Torrado
  • Amargo
  • Terroso

Folhas e raízes

Urtiga

Urtica dioica L.

Folhas secas de Urtica dioica, de infusão verde e suave, com sabor herbal e mineral, sem cafeína e com longa história na culinária rural europeia.

  • Herbal
  • Terroso
  • Adocicado

Folhas e raízes

Boldo

Plectranthus barbatus Andrews

Folhas aveludadas e muito amargas do boldo-brasileiro, presença antiga em quintais do país; não confundir com o boldo-do-chile, Peumus boldus.

  • Amargo
  • Herbal
  • Terroso

Flores usadas em infusões

Camomila

Matricaria chamomilla L. (sinônimo: Matricaria recutita L.)

Pequena margarida de miolo amarelo e perfume de maçã, a camomila é uma das tisanas mais conhecidas do mundo e figura em tradições domésticas de muitos países.

  • Floral
  • Adocicado
  • Herbal

Folhas e raízes

Ginseng

Panax ginseng C.A.Mey.

Raiz de Panax ginseng, emblema das tradições da Coreia e da China, preparada em decocções, chás e bebidas de sabor terroso e adocicado amargo.

  • Amargo
  • Terroso
  • Adocicado

Folhas e raízes

Carqueja

Baccharis trimera (Less.) DC.

Planta de caules alados e sabor intensamente amargo, a carqueja é um símbolo das ervas dos campos sul-americanos, preparada em infusões e decocções.

  • Amargo
  • Herbal
  • Terroso

Fontes consultadas

  • Royal Botanic Gardens, Kew. Plants of the World Online: Taraxacum officinale.
  • EMA/HMPC. Monografias comunitárias sobre Taraxaci officinalis folium cum radice e Taraxaci officinalis radix cum herba.
  • Farmacopeia Brasileira (Anvisa). Informações sobre Taraxacum officinale.
  • NIH/NCCIH. Informações sobre plantas medicinais e segurança do uso.
  • Mabberley's Plant-Book (Cambridge University Press).

Critérios em Critérios de pesquisa e uso de fontes. Termos técnicos no glossário. Última revisão: 23 de outubro de 2026.