Carqueja
Baccharis trimera (Less.) DC.
Planta de caules alados e sabor intensamente amargo, a carqueja é um símbolo das ervas dos campos sul-americanos, preparada em infusões e decocções.
- Amargo
- Herbal
- Terroso
- Tisana
- Sem cafeína

Apresentação
A carqueja é uma das ervas mais características dos campos do sul do Brasil e dos países vizinhos. Sua aparência chama atenção: em vez de folhas comuns, os caules são achatados e alados, em segmentos verdes que dão à planta o aspecto de uma pequena vassoura. O gosto, muito amargo, é a razão de seu nome popular em partes da região, carqueja-amarga, e de muitos de seus usos domésticos.
Na prática, o que se chama de chá de carqueja é feito com as partes aéreas da planta, caules alados cortados e secos, e não de folhas propriamente ditas. A erva é vendida em feiras, mercados populares e casas de ervas, em pacotes de ramos secos picados, e aparece também em misturas de ervas para chimarrão em algumas regiões.
Seu lugar cultural é o da planta de casa, aquela que a avó guardava em um pote e preparava em pequenas quantidades. No campo gaúcho e nos pampas, a carqueja faz parte de um conjunto de ervas que compõem o vocabulário popular de plantas, ao lado da marcela, da losna e do funcho.
Origem
A carqueja é nativa da América do Sul, com ocorrência em campos e áreas de altitude do sul e sudeste do Brasil, no Paraguai, na Argentina, no Uruguai e na Bolívia. Cresce de forma espontânea em campos abertos, encostas e pastagens, e é coletada e cultivada para consumo regional.
Características visuais
Subarbusto de cerca de meio metro a um metro, de caules verdes, trialados, que se dividem em segmentos articulados. As folhas são reduzidas a escamas minúsculas, e a fotossíntese se faz nos próprios caules. A planta é dioica, com flores pequenas, brancas, reunidas em capítulos discretos. A droga seca é verde-acinzentada, fibrosa, em pedaços achatados de textura firme, com odor resinoso.
Aroma e sabor
O aroma é resinoso, herbáceo e levemente aromático, com nota que lembra pinho e mato seco. O sabor é francamente amargo, persistente, com adstringência perceptível, e a infusão fica em tom verde-amarelado a âmbar. Quem a consome costuma preparar de forma fraca, em pouca quantidade, ou misturá-la com ervas mais doces, como erva-cidreira, ou com limão e mel para suavizar o amargor.
Preparo tradicional
As medidas abaixo são de paladar, não de dose. Ajuste ao seu gosto.
| Método | Água | Tempo | Proporção | Como se faz |
|---|---|---|---|---|
| Infusão leve | 90–95 °C | 3–5 min | 1 colher de chá de ramos secos para 200 mL (medida de paladar) | Despeje a água quente sobre os ramos secos, tampe e deixe em repouso por pouco tempo. O amargor cresce rapidamente, de modo que tempos curtos são mais agradáveis. |
| Decocção breve | 100 °C | 2–3 min de fervura e 5 min de repouso | 1 colher de chá de ramos secos para 250 mL | Em preparos domésticos tradicionais, os caules são fervidos por poucos minutos e deixados em repouso, o que resulta em bebida mais escura e amarga. |
Presença nas culturas
Sul do Brasil
No Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, a carqueja é planta de quintal e de campo, vendida em mercados públicos e em feiras de ervas, e faz parte do repertório popular de chás.
Uruguai, Argentina e Paraguai
Conhecida como carqueja ou carquejilla, aparece em misturas de ervas para mate e em bebidas amargas tradicionais, dentro da cultura de ervas dos pampas.
Sudeste e Cerrado brasileiros
Em campos de altitude de Minas Gerais e de São Paulo a carqueja é coletada em encostas e vendida por raizeiros, que a oferecem junto com outras plantas nativas de uso doméstico.
Usos tradicionais
Contexto cultural Não é evidência científica
Na tradição popular brasileira, a carqueja é associada a preparos tomados antes ou depois das refeições e a receitas caseiras para o estômago, o fígado e a digestão. Esses usos são registros culturais antigos, que se transmitiram de geração em geração e não comprovam eficácia.
Também é popularmente associada a dietas e a receitas de emagrecimento caseiras, mas essa fama não se apoia em evidência científica sólida e não deve ser tomada como orientação. A carqueja aparece na Farmacopeia e em listas de plantas medicinais regionais, o que atesta seu uso tradicional, não sua eficácia.
O que a pesquisa diz
Evidência científica Com limitações
A carqueja contém flavonoides, como a apigenina e a luteolina, saponinas, óleo essencial e diterpenos, e seu amargor está associado a esses constituintes. A espécie consta em referências oficiais brasileiras, como a Farmacopeia Brasileira e a lista de drogas vegetais de notificação simplificada da Anvisa, o que reflete uso tradicional documentado.
Há estudos pré-clínicos, em células e em animais, investigando atividades antioxidantes, hipoglicemiantes e gastrointestinais de extratos, mas os dados em humanos são escassos e os ensaios clínicos, quando existem, são pequenos. As evidências são, portanto, limitadas e não permitem afirmar efeito terapêutico para a infusão consumida em casa.
Cuidados e contraindicações
- Gravidez e amamentação. A carqueja é citada em fontes tradicionais e técnicas como desaconselhada na gestação e na lactação, por falta de dados de segurança e por relatos de efeitos sobre o útero em estudos com animais. Deve ser evitada.
- Medicamentos. Há relatos de possível interação com medicamentos para pressão arterial e para diabetes, e com anticoagulantes. Quem utiliza esses medicamentos deve consultar um profissional antes de qualquer uso.
- Uso prolongado. Por seu perfil amargo, a planta é considerada de uso ocasional. O consumo contínuo e em grandes quantidades não é recomendado, e quem tem pressão baixa, gastrite ou problemas hepáticos deve ter cautela.
- Identificação correta. Existem várias espécies de Baccharis, com diferenças de composição. Compre de fornecedores confiáveis, com identificação botânica. Em caso de dúvidas, de condições de saúde ou de uso de medicamentos, consulte um profissional de saúde.
Curiosidades
- O nome científico trimera refere-se aos três ângulos, ou asas, que sustentam o caule da planta.
- A carqueja é planta dioica, com indivíduos masculinos e femininos distintos.
- O gênero Baccharis reúne centenas de espécies, quase todas das Américas.
- A carqueja aparece em publicações oficiais de plantas medicinais brasileiras, como a Farmacopeia.
Comparação com plantas relacionadas
| Planta | Parte usada | Sabor | Cafeína | Aroma | Amargor | Doçura |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Carqueja Baccharis trimera (Less.) DC. | Folha | Amargo, Herbal, Terroso | Sem cafeína | 3/5 | 5/5 | 1/5 |
| Boldo Plectranthus barbatus Andrews | Folha | Amargo, Herbal, Terroso | Sem cafeína | 3/5 | 5/5 | 1/5 |
| Erva-mate Ilex paraguariensis A.St.-Hil. | Folha | Herbal, Amargo, Terroso, Refrescante | Contém cafeína | 3/5 | 4/5 | 1/5 |
| Dente-de-leão Taraxacum officinale F.H.Wigg. | Folha, Raiz e rizoma, Flor | Amargo, Herbal, Terroso, Torrado | Sem cafeína | 2/5 | 4/5 | 1/5 |
| Erva-cidreira-brasileira Lippia alba (Mill.) N.E.Br. ex Britton & P.Wilson | Folha | Cítrico, Herbal, Adocicado | Sem cafeína | 3/5 | 2/5 | 2/5 |
Notas de 1 a 5 são avaliações editoriais de intensidade percebida, úteis para comparar, e não medições. Veja mais no comparador.
Veja também
Folhas e raízes
Boldo
Plectranthus barbatus Andrews
Folhas aveludadas e muito amargas do boldo-brasileiro, presença antiga em quintais do país; não confundir com o boldo-do-chile, Peumus boldus.
- Amargo
- Herbal
- Terroso
Chás tradicionais
Erva-mate
Ilex paraguariensis A.St.-Hil.
Árvore subtropical sul-americana cujas folhas secas e moídas alimentam o chimarrão, o tereré e o mate gelado, bebidas centrais do Cone Sul.
- Herbal
- Amargo
- Terroso
Folhas e raízes
Dente-de-leão
Taraxacum officinale F.H.Wigg.
Planta onipresente de folhas dentadas e flor amarela, usada como verdura amarga, em infusão de folhas e em decocção de raiz torrada, substituta do café.
- Amargo
- Herbal
- Terroso
Ervas aromáticas
Erva-cidreira-brasileira
Lippia alba (Mill.) N.E.Br. ex Britton & P.Wilson
Arbusto nativo das Américas de folhas ásperas e perfume cítrico, a Lippia alba é a erva-cidreira de muitos quintais brasileiros, de composição variável.
- Cítrico
- Herbal
- Adocicado
Ervas aromáticas
Sálvia
Salvia officinalis L.
Subarbusto mediterrâneo de folhas aveludadas e acinzentadas, a sálvia rende uma tisana resinosa e canforada, muito presente na cozinha e nos herbários europeus.
- Herbal
- Terroso
- Amargo
Folhas e raízes
Ginseng
Panax ginseng C.A.Mey.
Raiz de Panax ginseng, emblema das tradições da Coreia e da China, preparada em decocções, chás e bebidas de sabor terroso e adocicado amargo.
- Amargo
- Terroso
- Adocicado
Fontes consultadas
- Royal Botanic Gardens, Kew. Plants of the World Online — Baccharis trimera (Less.) DC.
- Farmacopeia Brasileira (Anvisa) — monografia de carqueja
- Anvisa — Instrução Normativa nº 02/2014 (lista de drogas vegetais de notificação simplificada)
- Flora e Funga do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro — Baccharis
Critérios em Critérios de pesquisa e uso de fontes. Termos técnicos no glossário. Última revisão: 23 de outubro de 2026.





