Chás tradicionais

Erva-mate

Ilex paraguariensis A.St.-Hil.

Árvore subtropical sul-americana cujas folhas secas e moídas alimentam o chimarrão, o tereré e o mate gelado, bebidas centrais do Cone Sul.

  • Herbal
  • Amargo
  • Terroso
  • Refrescante
  • Erva estimulante
  • Contém cafeína
Ramo de erva-mate (Ilex paraguariensis) com folhas serrilhadas e frutos pequenos
Foto: Fabricio Martins do Canto · CC BY-SA 4.0 · fonte: Wikimedia Commons (arquivo “Ilex Paraguariensis big and small leaves.png”).
Conteúdo informativo e cultural. Usos tradicionais são contexto histórico, não comprovação de eficácia. Veja os cuidados e o aviso sobre plantas e saúde.

Apresentação

A erva-mate é, ao mesmo tempo, uma árvore, uma matéria-prima e um ritual. As folhas colhidas de Ilex paraguariensis passam por sapeco (rápido contato com fogo), secagem e moagem, e a erva resultante é a base de várias bebidas: o chimarrão, bebido quente numa cuia com bomba no Rio Grande do Sul, no Uruguai e na Argentina; o tereré, servido com água gelada e muito popular no Paraguai e no Mato Grosso do Sul; e o mate tostado, vendido em saquinhos ou a granel, em geral gelado, como no litoral carioca.

Pertence ao mesmo gênero do azevinho europeu, e o ponto comum entre eles são folhas persistentes e frutos pequenos e vermelhos. Diferentemente do chá verdadeiro, não é Camellia sinensis, e por isso é classificada como erva estimulante.

Mais do que bebida, o mate é gesto de convivência: a cuia passa de mão em mão, com quem serve cuidando da temperatura e do ritmo. Compartilhar, ou recusar com educação, é parte das regras sociais não escritas em muitas comunidades gaúchas, uruguaias e argentinas.

Origem

A árvore é nativa de uma região subtropical que abrange o sul do Brasil, o nordeste da Argentina, o Paraguai e o Uruguai, nas bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, geralmente em florestas de araucária e matas associadas. Os povos guaranis já consumiam a infusão das folhas antes da chegada dos europeus, e os missionários jesuítas ajudaram a organizar seu cultivo nas reduções, no período colonial. Hoje as principais regiões produtoras são o norte do Rio Grande do Sul, o Paraná, Santa Catarina, Misiones na Argentina e o Paraguai.

Características visuais

Árvore que alcança de 10 a 20 m de altura na mata, mas é podada em plantios para facilitar a colheita. As folhas são alternas, de borda serrilhada, coriáceas e verde-escuras, e as flores, pequenas e esbranquiçadas, aparecem em cachos curtos. Os frutos são drupas redondas, que ficam arroxeadas quando maduras. A erva comercial tem tons de verde, de aspecto picado e pulverulento; a versão tradicional do chimarrão traz folhas e pequenos talos, enquanto o mate tostado é marrom e de granulometria mais fina.

Aroma e sabor

O chimarrão tem aroma de relva fresca e fumaça leve, e sabor herbal e amargo, que muitos descrevem como vegetal e terroso, com persistência longa. Erva de estilo argentino, mais envelhecida, ganha um tom mais suave e amadeirado; a uruguaia, mais fina, pode ser mais intensa. O mate tostado é mais doce, com notas de torrado e cereal, e menos amargo. No tereré, o frio atenua o amargor e destaca o frescor vegetal. A infusão se combina com folhas de hortelã, limão, laranja e outras ervas, hábito comum no tereré, chamado de tereré rupa, em que se adicionam ervas medicinais populares. O paladar é de gosto adquirido, e a primeira cuia costuma ser a mais amarga.

Aroma
Amargor
Doçura
Corpo

Preparo tradicional

As medidas abaixo são de paladar, não de dose. Ajuste ao seu gosto.

Formas de preparo
MétodoÁguaTempoProporçãoComo se faz
Chimarrão70–80 °C (nunca fervente)Contínuo, reabastecidoCerca de dois terços da cuia (medida de hábito)Encher dois terços da cuia com erva, inclinar, verter água morna na parede e inserir a bomba sem mexer. Reabastecer conforme necessário.
TereréÁgua geladaContínuoCerca de dois terços da guampa (medida de hábito)Erva na guampa, água gelada, às vezes com suco cítrico ou ervas.
Mate em saquinho ou erva tostada80–90 °C4–6 min1 colher de sopa para 200 mL (medida de paladar)Infusão em xícara ou jarra, quente ou gelada.

Presença nas culturas

Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina

O chimarrão é símbolo de identidade, bebido de manhã, em casa, no trabalho e à beira da estrada, em geral com termo de água quente a tiracolo. A cuia e a bomba são objetos de afeto e passam de geração em geração.

Paraguai e Mato Grosso do Sul

O tereré é a variante fria, bebida em rodas, em guampa de chifre ou plástico, com vocabulário próprio e papel central na sociabilidade.

Litoral brasileiro

O mate tostado e gelado, vendido em copos de rua, virou parte da paisagem de praias, sobretudo no Rio de Janeiro.

Síria e Líbano

Por influência de migrantes, o mate chegou a esses países e permanece como hábito local de forma notável, com variantes próprias.

Usos tradicionais

Contexto cultural Não é evidência científica

Para os guaranis, a folha de caá era valorizada como bebida de convívio e de resistência em longas jornadas, e os jesuítas e depois os tropeiros difundiram o hábito pelo continente. Na tradição popular, o mate é associado a vigor e disposição e acompanhou trabalhadores rurais e viajantes por séculos.

Tais associações são contexto cultural e não evidência de eficácia. O mate ocupa um lugar social: é a bebida que se oferece a quem chega, e a roda de mate, mais que a substância, é o ponto central do costume.

O que a pesquisa diz

Evidência científica Com limitações

A folha contém cafeína, teobromina em menor quantidade, saponinas, polifenóis como ácidos clorogênicos e alguns flavonoides. O teor de cafeína varia com a variedade, a idade das folhas e a forma de preparo, e o chimarrão, por usar muita erva e reposição contínua de água, pode ter um consumo total de cafeína considerável.

Estudos sobre o mate são em grande parte laboratoriais ou observacionais, e os ensaios clínicos são pequenos e inconclusivos. Há também estudos epidemiológicos que associam o consumo de bebidas muito quentes, inclusive o mate quente, a maior risco de câncer de esôfago, e a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) classificou a ingestão de bebidas acima de 65 °C como provavelmente cancerígena, o que justifica atenção à temperatura.

Cuidados e contraindicações

  • Gravidez e amamentação. Por conter cafeína, recomenda-se moderação e atenção ao consumo total de cafeína nesse período.
  • Temperatura. Evite beber a infusão muito quente. O chimarrão é tradicionalmente preparado abaixo da fervura por razões de paladar, e também de cuidado.
  • Medicamentos e sensibilidade. A cafeína pode interagir com alguns medicamentos e agravar insônia, ansiedade e palpitações em pessoas sensíveis.
  • Identificação correta. Compre erva de procedência conhecida; o nome 'mate' é usado também para outras plantas regionais. Em caso de dúvidas, condições de saúde ou uso de medicamentos, consulte um profissional de saúde.

Curiosidades

  • A erva-mate é do mesmo gênero (Ilex) que o azevinho europeu e a guayusa amazônica.
  • A palavra mate vem do quéchua mati, que designava a cabaça usada como recipiente.
  • Na bomba, o filtro na ponta impede que a erva suba pelo canudo.
  • O sapeco, rápido contato das folhas com o fogo, interrompe a oxidação e faz parte do beneficiamento tradicional.
  • Em Paraná e Rio Grande do Sul, a cultura da erva-mate é reconhecida como patrimônio regional.

Comparação com plantas relacionadas

Comparação entre Erva-mate e plantas relacionadas
PlantaParte usadaSaborCafeínaAromaAmargorDoçura
Erva-mate
Ilex paraguariensis A.St.-Hil.
FolhaHerbal, Amargo, Terroso, RefrescanteContém cafeína3/54/51/5
Guayusa
Ilex guayusa Loes.
FolhaHerbal, Adocicado, TerrosoContém cafeína3/52/52/5
Camellia sinensis
Camellia sinensis (L.) Kuntze
Folha, BrotoHerbal, Amargo, Adocicado, TorradoContém cafeína4/53/52/5
Hortelã-pimenta
Mentha × piperita L.
FolhaRefrescante, Herbal, AdocicadoSem cafeína5/51/52/5
Mugicha
Hordeum vulgare L.
SementeTorrado, Adocicado, TerrosoSem cafeína3/51/52/5

Notas de 1 a 5 são avaliações editoriais de intensidade percebida, úteis para comparar, e não medições. Veja mais no comparador.

Veja também

Chás tradicionais

Guayusa

Ilex guayusa Loes.

Árvore amazônica parente da erva-mate, cuja folha dá uma infusão suave, herbal e adocicada, com cafeína, tradicional entre povos kichwa e shuar.

  • Herbal
  • Adocicado
  • Terroso

Chás tradicionais

Camellia sinensis

Camellia sinensis (L.) Kuntze

Arbusto de onde vêm todos os chás verdadeiros: verde, branco, amarelo, oolong, preto e pu-erh. As diferenças nascem do processamento da folha, não da espécie.

  • Herbal
  • Amargo
  • Adocicado

Ervas aromáticas

Hortelã-pimenta

Mentha × piperita L.

Híbrido europeu de folhas intensas em mentol, a hortelã-pimenta rende uma infusão fresca e vibrante, uma das tisanas mais consumidas do mundo.

  • Refrescante
  • Herbal
  • Adocicado

Chás tradicionais

Mugicha

Hordeum vulgare L.

Infusão de cevada torrada, bebida do verão japonês e coreano, de sabor tostado e levemente adocicado e sem cafeína.

  • Torrado
  • Adocicado
  • Terroso

Folhas e raízes

Carqueja

Baccharis trimera (Less.) DC.

Planta de caules alados e sabor intensamente amargo, a carqueja é um símbolo das ervas dos campos sul-americanos, preparada em infusões e decocções.

  • Amargo
  • Herbal
  • Terroso

Folhas e raízes

Boldo

Plectranthus barbatus Andrews

Folhas aveludadas e muito amargas do boldo-brasileiro, presença antiga em quintais do país; não confundir com o boldo-do-chile, Peumus boldus.

  • Amargo
  • Herbal
  • Terroso

Fontes consultadas

  • Royal Botanic Gardens, Kew. Plants of the World Online: Ilex paraguariensis.
  • Flora e Funga do Brasil (Jardim Botânico do Rio de Janeiro). Ilex paraguariensis.
  • Farmacopeia Brasileira (Anvisa). Monografia de Ilex paraguariensis.
  • IARC/OMS. Drinking Coffee, Mate, and Very Hot Beverages (IARC Monographs, vol. 116, 2016).
  • Embrapa Florestas. Publicações sobre cultivo e cadeia produtiva da erva-mate.

Critérios em Critérios de pesquisa e uso de fontes. Termos técnicos no glossário. Última revisão: 23 de outubro de 2026.