Cravo-da-índia
Syzygium aromaticum (L.) Merr. & L.M.Perry
Botões florais secos de uma árvore das Molucas, ricos em eugenol. Aroma quente e penetrante, indispensável no vinho quente, no chai e em muitos doces brasileiros.
- Especiado
- Adocicado
- Amargo
- Especiaria
- Sem cafeína

Apresentação
O que chamamos de cravo é o botão de uma flor de árvore, colhido antes de abrir, quando passa do verde ao rosado, e depois seco ao sol até ficar marrom-escuro. Seu formato lembra um pequeno prego com cabeça redonda, e é daí que vem o nome, de clavus, prego em latim, e clove em inglês. Não tem relação com o cravo-flor, do gênero Dianthus.
Poucas especiarias tiveram tanta influência histórica. Durante séculos, o comércio do cravo foi disputado por portugueses, holandeses e outros europeus, em guerras pelo controle das Molucas. Tamanho valor se explica pelo aroma persistente e pela capacidade de perfumar alimentos e ambientes.
Em bebidas, o cravo é usado com generosidade pequena. Uma ou duas unidades bastam para impregnar uma panela de vinho quente, de quentão, de chá com gengibre ou de calda. Em excesso, domina e amarga, daí a regra de que, nesse caso, menos é mais.
Origem
O cravo-da-índia é nativo das ilhas Molucas, na Indonésia, que ficaram conhecidas como Ilhas das Especiarias. Há registros muito antigos do comércio do botão floral seco pela Ásia e pelo Mediterrâneo. Mais tarde, o cultivo se espalhou por Zanzibar, Madagascar, Sri Lanka e Brasil, sobretudo na Bahia, onde há plantios.
Características visuais
A árvore é perene, de até 10 a 12 m, com folhas lustrosas e aromáticas, e flores em cachos terminais. O botão seco mede de 1 a 2 cm, com a haste (hipanto) alongada e quatro sépalas que sustentam uma esfera formada pelas pétalas fechadas. Quando de boa qualidade, é oleoso e solta um pouco de óleo ao ser pressionado com a unha. Cravos velhos ficam quebradiços, claros e sem aroma.
Aroma e sabor
O aroma é quente, doce e picante, com notas de especiaria, madeira e algo medicinal, determinado em grande parte pelo eugenol. O sabor é intenso, quase anestesiante na língua, com amargor residual. Em decocção, a bebida fica avermelhada. Combina com canela, laranja, maçã, gengibre, vinho tinto, chá-preto e chocolate. Em infusões longas, torna-se amargo e fica dominante, por isso o tempo deve ser curto.
Preparo tradicional
As medidas abaixo são de paladar, não de dose. Ajuste ao seu gosto.
| Método | Água | Tempo | Proporção | Como se faz |
|---|---|---|---|---|
| Decocção curta | 100 °C | 3–5 min | 2 a 3 cravos para 300 mL | Ferva poucos cravos em água por alguns minutos, desligue, tampe e coe. Use pouco, pois o sabor é forte. As proporções são de paladar. |
| Infusão em blend | 95 °C | 4–5 min | 1 cravo para 200 mL | Junte um cravo a um chá-preto, rooibos ou maçã, em bule, e deixe poucos minutos antes de retirar. |
Presença nas culturas
Indonésia
O cravo é matéria-prima dos cigarros kretek, em que se mistura ao tabaco. A influência do cravo na cultura do arquipélago vai muito além da cozinha.
Brasil
O cravo está no quentão, no vinho quente, no arroz-doce, na goiabada e no doce de abóbora. É fixação de festas juninas e de receitas de família.
Índia
Faz parte do garam masala e do masala chai. Muitas vezes se oferecem cravos e outras sementes aromáticas ao fim das refeições.
Usos tradicionais
Contexto cultural Não é evidência científica
Em muitas tradições populares, como o ayurveda e a medicina tradicional chinesa, o cravo foi associado a dores de dente e ao conforto da boca, e seu óleo foi usado em práticas caseiras. Trata-se de contexto histórico e cultural, não de comprovação de eficácia.
Na Europa medieval e moderna, o cravo era usado em perfumes, conservas e para aromatizar ambientes, além de em laranjas aromáticas (pomanders). Seu papel na cozinha sempre foi o de perfumar e conservar.
O que a pesquisa diz
Evidência científica Com limitações
O principal componente do óleo, em geral de 70 a 90%, é o eugenol, que apresenta atividade antimicrobiana e anestésica local em estudos laboratoriais e é usado em produtos odontológicos regulados. Esse uso em dentística, porém, é distinto do consumo da infusão.
Há pesquisas sobre atividade antioxidante e outros efeitos em modelos celulares e animais, mas faltam ensaios clínicos que sustentem benefícios do chá. Em doses altas, o eugenol pode ser tóxico ao fígado, sobretudo em crianças.
Cuidados e contraindicações
- Óleo essencial. O óleo de cravo é muito concentrado e não deve ser ingerido nem aplicado puro sobre pele e gengivas sem orientação, pois irrita e pode ser tóxico, especialmente a crianças.
- Gravidez e amamentação. Em quantidade culinária é geralmente aceito; evite extratos, óleos e consumo regular em dose elevada.
- Medicamentos. O eugenol pode interferir na coagulação. Quem usa anticoagulantes ou fará cirurgia deve conversar com o médico sobre consumo elevado.
- Identificação correta. Prefira cravos inteiros, oleosos e perfumados. Não confunda com o cravo-flor ornamental (Dianthus). Em caso de dúvidas, de condições de saúde ou uso de medicamentos, consulte um profissional de saúde.
Curiosidades
- Durante séculos, as Molucas foram o único lugar do mundo onde o cravo era cultivado, e o monopólio holandês chegou a destruir árvores para controlar o preço.
- O nome vem do latim clavus, prego, pelo formato do botão seco.
- Laranjas espetadas com cravos, os pomanders, eram usadas na Europa para perfumar ambientes.
- O cravo contém o eugenol, o mesmo composto que dá aroma ao manjericão-cravo e, em menor proporção, à canela.
Comparação com plantas relacionadas
| Planta | Parte usada | Sabor | Cafeína | Aroma | Amargor | Doçura |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Cravo-da-índia Syzygium aromaticum (L.) Merr. & L.M.Perry | Flor | Especiado, Adocicado, Amargo | Sem cafeína | 5/5 | 3/5 | 2/5 |
| Canela Cinnamomum verum J.Presl e Cinnamomum cassia (L.) J.Presl | Casca | Especiado, Adocicado, Floral | Sem cafeína | 4/5 | 1/5 | 3/5 |
| Cardamomo Elettaria cardamomum (L.) Maton | Fruto, Semente | Especiado, Floral, Refrescante, Adocicado | Sem cafeína | 5/5 | 2/5 | 2/5 |
| Gengibre Zingiber officinale Roscoe | Raiz e rizoma | Especiado, Cítrico, Refrescante, Adocicado | Sem cafeína | 4/5 | 1/5 | 2/5 |
| Anis-estrelado Illicium verum Hook.f. | Fruto | Especiado, Adocicado, Refrescante | Sem cafeína | 4/5 | 1/5 | 3/5 |
Notas de 1 a 5 são avaliações editoriais de intensidade percebida, úteis para comparar, e não medições. Veja mais no comparador.
Veja também
Especiarias para bebidas
Canela
Cinnamomum verum J.Presl e Cinnamomum cassia (L.) J.Presl
Casca interna enrolada de árvores do gênero Cinnamomum. A canela-do-ceilão é delicada e cítrica; a cássia, mais forte e picante, contém bem mais cumarina.
- Especiado
- Adocicado
- Floral
Especiarias para bebidas
Cardamomo
Elettaria cardamomum (L.) Maton
Cápsulas verdes cheias de sementes pretas, com aroma resinoso, cítrico e mentolado. Essencial no chai indiano e no café árabe, tem um perfume que se percebe muito em pouca quantidade.
- Especiado
- Floral
- Refrescante
Folhas e raízes
Gengibre
Zingiber officinale Roscoe
Rizoma de sabor picante e cítrico, base de decocções, chás e bebidas do mundo todo, do masala chai ao ginger beer.
- Especiado
- Cítrico
- Refrescante
Especiarias para bebidas
Anis-estrelado
Illicium verum Hook.f.
Fruto em forma de estrela de oito pontas, de sabor semelhante ao do anis. Muito usado em chai, vinho quente e caldos asiáticos, mas não deve ser confundido com Illicium anisatum, tóxico.
- Especiado
- Adocicado
- Refrescante
Especiarias para bebidas
Baunilha
Vanilla planifolia Jacks. ex Andrews
Vagem curada de uma orquídea trepadeira, resultado de meses de trabalho manual. Aroma doce, cremoso e complexo, que perfuma leites, chás, cafés, cacau e sobremesas.
- Adocicado
- Floral
- Especiado
Especiarias para bebidas
Açafrão
Crocus sativus L.
Estigmas secos de uma flor de outono, colhidos à mão. Dão cor dourada, aroma de mel e feno e sabor sutilmente amargo. Não se confunde com o açafrão-da-terra, que é cúrcuma.
- Floral
- Especiado
- Adocicado
Fontes consultadas
- Royal Botanic Gardens, Kew. Plants of the World Online: Syzygium aromaticum.
- EMA/HMPC. Monografia comunitária sobre Caryophylli floris aetheroleum e Caryophylli flos.
- Farmacopeia Brasileira (Anvisa). Monografia de cravo-da-índia.
- Mabberley's Plant-Book. Verbete sobre Syzygium e Myrtaceae.
Critérios em Critérios de pesquisa e uso de fontes. Termos técnicos no glossário. Última revisão: 23 de outubro de 2026.





