Marrocos

O chá de hortelã marroquino

Chá verde, hortelã fresca e açúcar, servido de grande altura em bule de prata: o gesto de hospitalidade que sintetiza o Marrocos.

Chá de hortelã sendo servido de bule prateado em copo decorado no Marrocos
Foto: katiebordner · CC BY 2.0 · fonte: Wikimedia Commons (arquivo “Mint tea (14823416550).jpg”).

Poucas bebidas representam tão bem um país quanto o chá de hortelã no Marrocos. Chamado muitas vezes de uísque marroquino, em tom de brincadeira, é oferecido a visitantes em casas, lojas, ateliês e hotéis, e recusar a bebida pode ser entendido como descortesia. Servir é gesto de acolhimento, e a forma de servir faz parte da mensagem.

A bebida combina chá verde chinês em grãos enrolados, o chamado gunpowder, com ramos abundantes de hortelã-verde e muito açúcar. O resultado é uma infusão refrescante, doce e herbal, bem diferente do chá verde preparado sem adição.

Como o chá chegou ao Magrebe

A história habitualmente contada liga a popularização do chá verde no Marrocos ao comércio com a Europa a partir do século XVIII ou XIX, quando comerciantes europeus trouxeram o chá chinês e acabaram encontrando mercado entre a população local. A hortelã, já difundida na culinária e nos jardins da região, foi incorporada à preparação, e a combinação se espalhou pelo Marrocos e pelo Magrebe.

Detalhes dessa trajetória são debatidos, e é mais seguro dizer que a bebida resulta de séculos de comércio e adaptação do que apontar uma data. Em todo caso, o chá é hoje inseparável da vida social marroquina, do Atlas ao Saara.

O preparo e o gesto de servir

O bule tradicional, de metal prateado, vai ao fogo com água e chá. Quando a água ferve, parte do líquido inicial é descartada ou servida em um copo e devolvida ao bule, para enxaguar as folhas e retirar parte do amargor. Em seguida entram a hortelã e o açúcar, em quantidade generosa, e o bule volta ao fogo para um último momento de infusão.

O chá é servido de altura, com o bule erguido bem acima do copo, o que oxigena a bebida e forma uma espuma na superfície. A técnica exige prática, e o anfitrião costuma despejar o chá em um copo e devolvê-lo ao bule mais de uma vez para misturar o açúcar. Os copos são pequenos, decorados, e o chá é consumido quente e sem pressa.

Três copos e a hospitalidade

Em muitas casas, oferecem-se três rodadas de chá, cada uma um pouco diferente, já que a infusão fica mais concentrada ao longo do tempo. Um provérbio frequentemente citado, atribuído a povos do deserto, compara os copos ao amargo da vida, ao doce do amor e à suavidade da morte. Seja ou não literal, a ideia de que cada copo tem seu sabor faz parte da experiência.

O chá acompanha negociações em souks, conversas familiares e encontros com visitantes. Costuma vir com bolinhos de amêndoa, pães e tâmaras. Em versões sazonais, a hortelã pode ser acompanhada de outras ervas, como verbena, absinto ou flor de laranjeira, conforme a região e a época do ano.

Curiosidades

  • O chá gunpowder recebe esse nome pelo formato das folhas enroladas, que lembram pequenos grãos de pólvora.
  • Altura do fio de chá e quantidade de espuma são vistas como sinais da habilidade de quem serve.
  • Os bules marroquinos são comumente feitos de metal prateado e decorados com gravuras.
  • A hortelã marroquina usada na bebida é geralmente da espécie Mentha spicata.

Plantas desta tradição

Chás tradicionais

Camellia sinensis

Camellia sinensis (L.) Kuntze

Arbusto de onde vêm todos os chás verdadeiros: verde, branco, amarelo, oolong, preto e pu-erh. As diferenças nascem do processamento da folha, não da espécie.

  • Herbal
  • Amargo
  • Adocicado

Ervas aromáticas

Hortelã-verde

Mentha spicata L.

A hortelã-verde, mais doce e delicada que a hortelã-pimenta, perfuma chás, sucos e pratos de várias cozinhas, do Marrocos ao Brasil.

  • Refrescante
  • Herbal
  • Adocicado

Outras tradições

Fontes consultadas

  • The Oxford Companion to Tea (Pettigrew e Richardson, ed.) — verbetes sobre Marrocos e chá verde gunpowder
  • Royal Botanic Gardens, Kew — Plants of the World Online: Mentha spicata e Camellia sinensis
  • Mabberley's Plant-Book — verbetes Camellia e Mentha
  • Wolfert, Paula. Couscous and Other Good Food from Morocco (1973)

Conteúdo cultural e informativo. Última revisão: 23 de outubro de 2026.