Marrocos
O chá de hortelã marroquino
Chá verde, hortelã fresca e açúcar, servido de grande altura em bule de prata: o gesto de hospitalidade que sintetiza o Marrocos.

Poucas bebidas representam tão bem um país quanto o chá de hortelã no Marrocos. Chamado muitas vezes de uísque marroquino, em tom de brincadeira, é oferecido a visitantes em casas, lojas, ateliês e hotéis, e recusar a bebida pode ser entendido como descortesia. Servir é gesto de acolhimento, e a forma de servir faz parte da mensagem.
A bebida combina chá verde chinês em grãos enrolados, o chamado gunpowder, com ramos abundantes de hortelã-verde e muito açúcar. O resultado é uma infusão refrescante, doce e herbal, bem diferente do chá verde preparado sem adição.
Como o chá chegou ao Magrebe
A história habitualmente contada liga a popularização do chá verde no Marrocos ao comércio com a Europa a partir do século XVIII ou XIX, quando comerciantes europeus trouxeram o chá chinês e acabaram encontrando mercado entre a população local. A hortelã, já difundida na culinária e nos jardins da região, foi incorporada à preparação, e a combinação se espalhou pelo Marrocos e pelo Magrebe.
Detalhes dessa trajetória são debatidos, e é mais seguro dizer que a bebida resulta de séculos de comércio e adaptação do que apontar uma data. Em todo caso, o chá é hoje inseparável da vida social marroquina, do Atlas ao Saara.
O preparo e o gesto de servir
O bule tradicional, de metal prateado, vai ao fogo com água e chá. Quando a água ferve, parte do líquido inicial é descartada ou servida em um copo e devolvida ao bule, para enxaguar as folhas e retirar parte do amargor. Em seguida entram a hortelã e o açúcar, em quantidade generosa, e o bule volta ao fogo para um último momento de infusão.
O chá é servido de altura, com o bule erguido bem acima do copo, o que oxigena a bebida e forma uma espuma na superfície. A técnica exige prática, e o anfitrião costuma despejar o chá em um copo e devolvê-lo ao bule mais de uma vez para misturar o açúcar. Os copos são pequenos, decorados, e o chá é consumido quente e sem pressa.
Três copos e a hospitalidade
Em muitas casas, oferecem-se três rodadas de chá, cada uma um pouco diferente, já que a infusão fica mais concentrada ao longo do tempo. Um provérbio frequentemente citado, atribuído a povos do deserto, compara os copos ao amargo da vida, ao doce do amor e à suavidade da morte. Seja ou não literal, a ideia de que cada copo tem seu sabor faz parte da experiência.
O chá acompanha negociações em souks, conversas familiares e encontros com visitantes. Costuma vir com bolinhos de amêndoa, pães e tâmaras. Em versões sazonais, a hortelã pode ser acompanhada de outras ervas, como verbena, absinto ou flor de laranjeira, conforme a região e a época do ano.
Curiosidades
- O chá gunpowder recebe esse nome pelo formato das folhas enroladas, que lembram pequenos grãos de pólvora.
- Altura do fio de chá e quantidade de espuma são vistas como sinais da habilidade de quem serve.
- Os bules marroquinos são comumente feitos de metal prateado e decorados com gravuras.
- A hortelã marroquina usada na bebida é geralmente da espécie Mentha spicata.
Plantas desta tradição
Chás tradicionais
Camellia sinensis
Camellia sinensis (L.) Kuntze
Arbusto de onde vêm todos os chás verdadeiros: verde, branco, amarelo, oolong, preto e pu-erh. As diferenças nascem do processamento da folha, não da espécie.
- Herbal
- Amargo
- Adocicado
Ervas aromáticas
Hortelã-verde
Mentha spicata L.
A hortelã-verde, mais doce e delicada que a hortelã-pimenta, perfuma chás, sucos e pratos de várias cozinhas, do Marrocos ao Brasil.
- Refrescante
- Herbal
- Adocicado
Outras tradições
Fontes consultadas
- The Oxford Companion to Tea (Pettigrew e Richardson, ed.) — verbetes sobre Marrocos e chá verde gunpowder
- Royal Botanic Gardens, Kew — Plants of the World Online: Mentha spicata e Camellia sinensis
- Mabberley's Plant-Book — verbetes Camellia e Mentha
- Wolfert, Paula. Couscous and Other Good Food from Morocco (1973)
Conteúdo cultural e informativo. Última revisão: 23 de outubro de 2026.

